O MúsicaPavê mudou para musicapave.com
Todo o conteúdo do blog pode ser relido lá.
Divirta-se!
ass. André Felipe de Medeiros
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Um dos maiores sucessos do The Wallflowers ganhou sua ilustração videográfica pelas mãos do cineasta David Fincher (de Seven, Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamin Button), que mistura fotografia com animação pelas ruas de Nova York.
6th Avenue Heartache foi a primeira música escrita pelo vocalista Jakob Dylan, quando ele tinha apenas 18 anos e morava na “Big Apple”. Sendo assim, o recurso fotográfico surge como elemento de evocação de lembranças da época descrita na canção, ao passo que ela surge quase que organicamente nos lábios do cantor enquanto ele e a banda passeiam pela cidade.
Os planos remetem à fotografia urbana “clássica”, estilo consolidado por nomes como Henri Cartier-Bresson, ao mesmo tempo que focaliza a banda e seus integrantes como um documentário – o que não é estranho para bandas de rock. A animação chega a brincar com a dualidade de animar as fotos – que esperamos ver estaticamente – ao mesmo tempo que desconstrói o cinema – já que esse é composto de um conjunto de fotografias animadas – alternando o número de quadros por segundo na tela e abrindo espaço para a antiga discussão sobre a velocidade de apreensão da informação.
O primeiro single de um álbum carrega a responsabilidade de proclamar a identidade do novo disco, sendo sua primeira referência tanto para os fãs, quanto para o grande público.
No início do ano, a banda Hanson divulgou que seu novo álbum Shout it Out apostaria em influências da música soul dos anos 60 e 70 que eles ouviam quando criança. O clipe de Thinking ‘Bout Something’ abre as portas para o saudosismo ao gravar, todo em vídeo digital, os meninos em sua cidade natal (Tulsa, Oklahoma) inspirados pelos filmes Os Irmãos Cara-de-Pau (Blues Brothers).
Dirigido pelo desconhecido Todd Edwards, o bom humor impera o videoclipe, que tem até mesmo a participação do comediante Weird Al Yankovic tocando o pandeiro. O diretor aposta na frontalidade dos planos abertos no início para situar o espectador na ação e em quadros mais fechados ao longo do vídeo revelando os detalhes durante a coreografia, com destaque para os planos do teclado refletido nos óculos do vocalista Taylor Hanson. A edição coloca a câmera estática no ritmo da música e a direção de arte, com suas tonalidades amareladas e desbotadas, envolve toda a produção na referência da época áurea da soul music sem deixar a contemporaneiradade de lado, ilustrando a canção e propagando o retorno da banda às rádios.
O retorno do The Wallflowers após o sucesso mundial do álbum Bringing Down the Horse (1996) teve como enunciação a canção Sleepwalker, que combinava melodia simples, tempo rápido e letras sombrias – o que caracterizou o então novo álbum Breach (2000).
Seu videoclipe seguia o mesmo clima ao alfinetar a plástica indústria da fama, aproveitando a recente experiência da banda na mídia e a pinta de modelo do vocalista Jakob Dylan, que na época desfilava em listas de pessoas mais bonitas dos Estados Unidos. Tudo é muito posado e artificial, desde os cenários com iluminação perfeita até as modelos que cobiçam o cantor pelo cachê.
O tratamento plástico e as cores tão bem escolhidas dão leveza às ações que poderiam ser agressivas se retratadas com maior naturalismo: Jakob vandalizando seu próprio pôster, vestindo e se despindo da bandeira americana e o cartaz do novo single da banda ocupando o espaço de uma campanha contra a fome. As belas imagens em planos bem pensados divertem sem causar incômodo, mais uma vez refletindo o sonambulismo do grande público consumidor, que por mais que assista a obras com esse conteúdo, se diante de uma boa produção que não se difira em algum formato diferente do hegemônico, não irá questionar sua passividade em relação ao showbiz.
O falso plano sequência de Naked as We Came, do Iron and Wine (pseudônimo do americano Sam Beam)(que assina também a direção do vídeo), preza por uma bela fotografia que acompanha a canção.
O tempo se confunde em três alegorias distintas: A mesa infestada de formigas, a inocência/pureza das crianças (que reflete o título da obra, “Nus como viemos”, em tradução direta) e a chuva. Embora na linguagem do vídeo e cinema o movimento para a direita indique progressão (enquanto para a esquerda representa o oposto), o vai-e-vem da câmera se desprende de tais conceitos e passeia livremente pela poesia dos violões e das cores ao fim-de-tarde.
Tanto as tonalidades, quanto o tipo de lente e seus recursos (como a profundidade de campo desfocada e o bokeh – os pontos de luz geométricos) são ainda hoje – 6 anos depois – tendência na fotografia, vídeo e cinema. É interessante como a simplicidade da voz acompanhada pelo violão combina com a multiplicidade de formas dos elementos na mesa, ao mesmo tempo que esses parecem menos complexos dialeticamente com o único movimento da câmera e o embalar da canção.
Enquanto a música eletrônica se atém às grandes produções com seus efeitos especiais e seguindo as tendências de sua época, a música folk traz para o vídeo suas raízes na natureza e na simplicidade.
Toda a singeleza da canção Northern Lights, dos americanos Bowerbirds, pode ser conferida em seu vídeo. Desde sua introdução de 8 segundos em uma tela cinza até o último plano do céu estrelado, o videoclipe aposta em planos bem pensados, que ainda assim parecem espontâneos, inserindo o casal na natureza que os observa. Entre detalhes e perspectivas abertas, sempre com luz natural (ambiente), a câmera se movimenta pouco e exibe ao telespectador uma coleção de imagens que seguem a progressão da música e revelam cada vez mais os protagonistas.
Todo o bucolismo na interação deles com o meio reflete ainda o aspecto neo-romântico/neo-barroco no qual a música folk se deleita hoje em dia. Há ainda a questão temporal que o vídeo pode inferir, na condição de um diferente aproveitamento do tempo que a imersão no ambiente natural provê, muito diferente do tempo urbano. Vale ressaltar ainda o destaque que as mãos (símbolo comum do “fazer” ou “produzir”) ganham nos planos, mostrando tanto o interagir com o mundo natural, quanto o fazer música – exatamente o espírito folk.
Assim como em Praise You, o DJ Fatboy Slim e o diretor Spike Jonze se reúnem para o vídeo de Weapon of Choice, que traz o delírio musical de Christopher Walken em um hotel deserto.
Com uma extensa experiência no teatro, a direção aposta na frontalidade ao capturar o veterano ator que transforma todo o espaço cênico em seu palco. Os movimentos de câmera se inspiram nos grandes musicais do século XX. A iluminação realista retrata a atmosfera elegante do hotel dourado com detalhes em vermelho, o que combina com o glamour do cinema clássico hollywoodiano.
A união de todos esses elementos produziram o que é considerado um dos melhores videoclipes já feitos, prolongando a lista de fãs do ator e seguindo a tradição das grandes produções para os vídeos de música eletrônica.
O final dos anos 90 testemunhou tanto o casamento definitivo entre os videoclipes e a música eletrônica, quanto o uso de tonalidades de verde, azul e ciano na fotografia, principalmente ao iluminar metais e cinzas. Esse recurso conferia a consolidação do visual futurista difundido nos anos 60, como se o futuro finalmente tivesse chegado.
E por mais que o CGI de Hey Boy Hey Girl (1999) da dupla britânica The Chemical Brothers hoje pareça datado, as imagens em slow motion que retratam a memória da infância são de muito bom gosto. A estética da época com a fotografia em cores frias e o visual limpo podem ser vistos por todo o vídeo.
A direção aposta em alternar entre diferentes pontos de vista, como na segunda metade que traz uma câmera menos emocional e mais objetiva, deixando o ludismo para a imaginação – às vezes em primeira pessoa – da protagonista. Onze anos depois, Hey Boy Hey Girl ainda é bastante contemporâneo, mesmo tão bem inserido no cenário dos anos 90.
David Byrne, do Talking Heads, empresta seus vocais à dançante Lazy do trio inglês X-Press 2.
O bem humorado videoclipe mostra um momento na vida do preguiçoso (“lazy”, em inglês) homem que, para viver sem sair do sofá, conta com a ajuda de tecnologias e improvisos duvidosos. Apostando na comicidade, o vídeo não enaltece a preguiça, mas todos a direção de arte a retrata como algo negativo, o que pode ser visto na maquinária decadente e o aspecto sujo não apenas do apartamento e do protagonista, mas na fotografia realista em cores desgastadas que sugerem a monotonia e a clausura do tempo e do espaço vividos no sofá.
O cineasta Spike Jonze, sob o pseudônimo Richard Koufey, e o fictício Torrence Community Dance Group utilizam poucas câmeras de vídeo e um aparelho de som portátil para realizar a gravação de Praise You, do inglês Fatboy Slim.
O videoclipe foi feito como um happening ou um flash mob, no qual os frequentadores (assim como os funcionários) do cinema na Califórnia não sabiam o que aconteceria quando o grupo de dança se reuniu. O uso de câmeras de vídeo, iluminação natural e a espontaneidade da ação (com pessoas passando em frente às câmeras e a interferência do funcionário, por exemplo) conferem um naturalismo diferente ao universo estilizado e high tech dos outros vídeos de música eletrônica
Da mesma forma, a música – feita a partir de quatro samplers de diferentes gravações (o que a legitimiza como um produto de música eletrônica) – desponta no álbum You’ve Come a Long Way, Baby (1998) como a mais humana das faixas, em meio às tantas batidas mais comuns no cenário eletrônico presente em todo o disco e nos programas de rádio e televisão que transmitiram Praise You em 1999.